Brasil digitaliza a vida, mas 29% da população ainda é analfabeta funcional
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Novo livro sobre os 25 anos do Inaf mostra que acesso à internet não significa inclusão digital e expõe desigualdades de renda, raça, idade e educação que também atravessam as telas

O Brasil colocou a vida dentro do celular. É por ele que a gente ouve música, assiste a vídeos, conversa, procura emprego, movimenta dinheiro, pede comida, estuda, acompanha notícias, preenche formulários e acessa serviços públicos.

Mas estar conectado significa, necessariamente, estar incluído no mundo digital? Os dados mais recentes do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) mostram que não.

No Brasil, 29% das pessoas entre 15 e 64 anos são consideradas analfabetas funcionais. O percentual permanece no mesmo patamar registrado em 2018 e revela uma desigualdade que ganha novos contornos quando praticamente tudo passa a depender de uma tela.

E esse grupo não está distribuído igualmente pela sociedade.

Entre os brasileiros em situação de analfabetismo funcional, 76% vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos, 58% são pretos ou pardos e 65% têm entre 40 e 64 anos.

Os números ajudam a mostrar que falar de alfabetização no Brasil não é apenas falar de escola. É também falar de renda, raça, geração, acesso à tecnologia e desigualdade social.

Ter internet não significa conseguir usar tudo o que ela oferece

A edição de 2024 do Inaf trouxe uma novidade importante: pela primeira vez em sua história, o levantamento incorporou uma avaliação em ambiente digital.

E os resultados colocam em xeque a ideia de que possuir um celular e acessar a internet sejam suficientes para garantir inclusão digital.

Entre as pessoas classificadas no nível elementar de alfabetismo, 95% haviam acessado a internet nos três meses anteriores à pesquisa. Elas estão online. Mas, quando precisam realizar determinadas tarefas, a situação muda.

Em uma atividade proposta pela pesquisa, apenas 17% conseguiram cumprir corretamente todas as etapas necessárias para realizar uma inscrição por meio de um formulário online.

Em uma simulação de compra pela internet, somente 13% concluíram todas as etapas da tarefa.

Outro exercício pedia que os participantes escolhessem um filme obedecendo a determinados critérios e justificassem a decisão. Apenas 4% conseguiram completar integralmente a atividade.

Os números revelam uma diferença fundamental: acessar a internet não é a mesma coisa que conseguir utilizar o ambiente digital com autonomia.

A desigualdade também entrou no celular

Durante muito tempo, falar em exclusão digital significava falar principalmente sobre quem tinha ou não acesso à internet.

Essa discussão mudou.

Hoje, grande parte da população possui algum tipo de conexão, mas isso não significa que todas as pessoas tenham as mesmas condições de interpretar informações, identificar conteúdos confiáveis, preencher cadastros, comparar dados ou utilizar plataformas digitais.

E isso importa porque a internet deixou de ser apenas um espaço de entretenimento.

Da procura por emprego ao acesso a benefícios, das operações bancárias aos serviços públicos, uma parte cada vez maior da vida cotidiana depende de aplicativos, sites, senhas, cadastros e formulários.

A pergunta, então, deixa de ser apenas “quem tem internet?”.

É preciso perguntar também: “o que cada pessoa consegue fazer quando entra nela?”

Desigualdade digital também tem cor e renda

Os dados do Inaf mostram ainda que as dificuldades relacionadas ao alfabetismo atingem de maneira desigual diferentes parcelas da população.

Mais da metade — 58% — dos brasileiros considerados analfabetos funcionais são pretos ou pardos.

Quando o recorte é econômico, a concentração é ainda maior: 76% pertencem a famílias com renda de até dois salários mínimos.

Também existe uma importante diferença regional. No Nordeste, 42% das pessoas entre 15 e 64 anos estão em situação de analfabetismo funcional.

Isso significa que as transformações tecnológicas não acontecem sobre um terreno igual.

Elas chegam a um país marcado por diferenças históricas no acesso à escola, à renda, ao trabalho, à cultura e às oportunidades.

A tecnologia pode abrir portas. Mas, sem políticas capazes de enfrentar essas desigualdades, também pode simplesmente criar novas versões de barreiras antigas.

E quem não nasceu na era digital?

A idade também aparece como um marcador importante. 65% das pessoas em situação de analfabetismo funcional têm entre 40 e 64 anos. O dado chama atenção especialmente em um país cuja população está envelhecendo e no qual tarefas antes realizadas presencialmente migram rapidamente para o ambiente digital.

É nesse ponto que a Educação de Jovens e Adultos (EJA) volta ao centro da discussão.

Não se trata apenas de oferecer escolarização para quem não conseguiu concluir os estudos. Trata-se também de garantir condições para que milhões de pessoas consigam participar de uma sociedade profundamente transformada pela tecnologia.

Para Heloisa Trenche Belusci, pesquisadora que integrou a equipe técnica do Inaf desde 2019 e uma das organizadoras da nova publicação sobre o indicador, o problema está diretamente relacionado às oportunidades educacionais oferecidas ao longo da vida.

“Os dados evidenciam a necessidade de políticas consistentes de Educação de Jovens e Adultos, capazes de enfrentar desigualdades que persistem e afetam justamente parcelas da população que tiveram seus direitos educacionais negados ao longo de suas trajetórias”, afirma.

25 anos olhando para o alfabetismo no Brasil

Os dados e as transformações ocorridas nesse período são discutidos no livro “Inaf 25 anos: alfabetismo no Brasil em tempos digitais”, lançamento da Diálogos Editora organizado por Heloisa Trenche Belusci e Roberto Catelli Jr.

Criado em 2001 pela Ação Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro, o Inaf realizou onze edições e se tornou uma das principais referências brasileiras para compreender como jovens e adultos utilizam conhecimentos de leitura, escrita e matemática em situações da vida cotidiana.

A nova publicação tem 160 páginas e reúne especialistas para analisar os resultados de 2024 em diálogo com os 25 anos de pesquisas.

Entre os assuntos abordados estão alfabetismo e letramento digital, conectividade, numeramento, desigualdades de raça, gênero e geração, Educação de Jovens e Adultos, escolarização, trabalho, participação social e cidadania.

Para Roberto Catelli Jr., organizador da publicação e responsável pelo Inaf na Ação Educativa, a dimensão digital amplia a maneira como o país precisa enxergar o problema.

“A incorporação da dimensão digital amplia essa análise e ajuda a compreender como as habilidades de leitura, escrita e matemática são mobilizadas em contextos cada vez mais mediados pela tecnologia”, afirma.

Livro será lançado gratuitamente em São Paulo

O livro “Inaf 25 anos: alfabetismo no Brasil em tempos digitais” será lançado no dia 21 de outubro, das 19h às 21h, no auditório da Ação Educativa, em São Paulo.

O evento é gratuito e aberto ao público.

A programação terá uma mesa de debate com especialistas como Daniela Costa (Cetic.br), Ana Elisa Ribeiro (Cefet-MG), Edneia Gonçalves (Ação Educativa), Rosalina Maria Soares (Fundação Roberto Marinho) e Maria Clara Di Pierro (FEUSP).

O encontro discutirá conectividade, alfabetismo e letramento digital, desigualdades raciais, escolarização, mudanças no mundo do trabalho e os desafios da Educação de Jovens e Adultos.

Depois da conversa, haverá lançamento do livro, coquetel e sessão de autógrafos.

Em um país no qual cada vez mais coisas acontecem através de uma tela, os 25 anos do Inaf deixam uma provocação que vai muito além da educação: não basta colocar o Brasil inteiro na internet. É preciso garantir que todo mundo consiga participar dela.

Serviço

Lançamento do livro “Inaf 25 anos: alfabetismo no Brasil em tempos digitais”
Data: 21 de outubro
Horário: 19h às 21h
Local: Auditório da Ação Educativa
Entrada: gratuita e aberta ao público

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