Da música criada por IA às eleições: livro investiga como a tecnologia transforma a cultura e a política
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Antropóloga Isabela Kalil lança Política Sintética nesta terça-feira (13), em São Paulo, e discute, com Michel Alcoforado, como vozes artificiais, imagens manipuladas e personagens digitais estão mudando a comunicação, as campanhas eleitorais e a democracia

Uma música pode ser criada por inteligência artificial sem que nenhum músico tenha entrado em estúdio. A voz de um artista pode ser reproduzida digitalmente para cantar algo que ele nunca gravou. Personagens virtuais podem conquistar seguidores, produzir conteúdos e até influenciar comportamentos. Mas o que acontece quando essas mesmas tecnologias passam a ser utilizadas para construir discursos políticos, simular eleitores e interferir nas eleições?

Essa é uma das discussões que atravessam Política Sintética — Como a inteligência artificial transforma os políticos, as eleições e a democracia?, novo livro da antropóloga Isabela Kalil, publicado pela Diálogos Editora. A obra será lançada nesta terça-feira, 13 de outubro, às 18h30, na Livraria Martins Fontes Consolação, em São Paulo, com um bate-papo entre a autora e o antropólogo e escritor Michel Alcoforado.

Com 232 páginas, o livro investiga como a inteligência artificial está transformando a maneira como imagens, vozes, personagens e acontecimentos são produzidos e colocados em circulação. A partir de pesquisas sobre o bolsonarismo, a extrema direita e as plataformas digitais, Kalil demonstra que essas tecnologias já participam da construção de narrativas políticas e da formação da opinião pública.

A discussão ultrapassa o universo das eleições e dialoga diretamente com transformações que também estão acontecendo na música, no entretenimento e na cultura digital.

Da voz dos artistas aos discursos políticos

Nos últimos anos, ferramentas de inteligência artificial generativa ampliaram as possibilidades de criação de músicas, vídeos, imagens e personagens digitais. Hoje, é possível reproduzir características de uma voz, simular performances e criar conteúdos que parecem ter sido produzidos por pessoas reais.

Esses recursos provocam debates sobre autoria, direitos de imagem, identidade artística e os limites entre criação e reprodução artificial.

Na política, as mesmas possibilidades tecnológicas levantam questões igualmente importantes. Um candidato pode aparecer em um vídeo gravado em um lugar onde nunca esteve. Uma liderança pode ter sua voz reproduzida para pronunciar palavras que jamais disse. Personagens artificiais podem simular comportamentos e opiniões, produzindo a impressão de apoio popular a determinados projetos políticos.

No livro, Isabela Kalil mostra que o impacto dessas tecnologias não se resume à fabricação de notícias falsas ou deepfakes. A inteligência artificial também modifica as condições em que discursos são produzidos, acontecimentos ganham visibilidade e pessoas passam a reconhecer determinadas narrativas como verdadeiras.

A autora acompanha, inclusive, como práticas de criação de músicas, vídeos e personagens com inteligência artificial circulam entre comunidades digitais, manifestações políticas e ambientes religiosos, podendo ser incorporadas às estratégias de propaganda e mobilização eleitoral.

Assim, ferramentas utilizadas para entretenimento e produção cultural também passam a integrar disputas pelo poder.

Quando o conteúdo viral vira ferramenta política

Uma das questões abordadas por Kalil é a capacidade de conteúdos artificiais interferirem na percepção pública sobre acontecimentos reais.

Durante uma manifestação bolsonarista na Avenida Paulista, em junho de 2025, a antropóloga encontrou uma mulher convencida de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia sido substituído por um clone. A crença era alimentada por vídeos e imagens manipuladas que circulavam nas redes sociais.

O episódio demonstra como conteúdos digitais podem ultrapassar o ambiente virtual e influenciar a maneira como as pessoas interpretam acontecimentos políticos.

Em plataformas nas quais músicas, memes, vídeos curtos e tendências disputam a atenção do público, a circulação de conteúdos políticos também passa a incorporar linguagens e formatos associados ao entretenimento.

O desafio, nesse cenário, não está apenas em identificar se determinada imagem ou gravação foi produzida artificialmente, mas em compreender como esses conteúdos ganham credibilidade, mobilizam emoções e influenciam comportamentos.

Kalil apresenta o conceito de política sintética para explicar como pessoas, plataformas, dados, sistemas de inteligência artificial e infraestruturas tecnológicas passam a participar conjuntamente da produção da vida política.

Isso significa que a tecnologia deixa de funcionar apenas como uma ferramenta de divulgação e passa a interferir nas próprias formas de representação e participação democrática.

Inteligência artificial, criatividade e poder das plataformas

A expansão da inteligência artificial também coloca em discussão o poder das grandes empresas de tecnologia sobre a circulação de informações e conteúdos culturais.

No livro, Isabela relaciona as transformações da política digital aos interesses econômicos e às disputas envolvendo plataformas, empresas de inteligência artificial e atores do Vale do Silício.

Esse debate encontra paralelos no universo da música e do entretenimento, onde artistas, produtores e criadores de conteúdo também enfrentam questões sobre autoria, uso de dados, reprodução de vozes e controle da distribuição digital.

Se uma tecnologia consegue reproduzir artificialmente a voz de um cantor, também pode reproduzir a de um candidato. Se personagens virtuais conseguem conquistar audiências e construir comunidades de seguidores, perfis sintéticos também podem ser utilizados para simular participação política.

A questão central passa a ser quem controla essas ferramentas, quem autoriza o uso de imagens e vozes e quem deve responder pelos efeitos de conteúdos artificiais.

Embora o bolsonarismo seja um dos principais campos de investigação da pesquisa, a autora demonstra que a política sintética não pertence exclusivamente a uma corrente ideológica. Seus efeitos dependem das relações sociais e políticas nas quais essas tecnologias são utilizadas.

Mais do que discutir os riscos de uma inovação tecnológica, Política Sintética convida o público a refletir sobre um mundo no qual as fronteiras entre criação, representação e realidade se tornam cada vez mais complexas.

Lançamento reúne Isabela Kalil e Michel Alcoforado

O lançamento acontece nesta terça-feira (13), na Livraria Martins Fontes Consolação, em São Paulo, e contará com um bate-papo entre Isabela Kalil e Michel Alcoforado.

Antropólogo, escritor e pesquisador de comportamento e consumo, Alcoforado é fundador do Grupo Consumoteca, colunista da CBN e apresentador do podcast É Tudo Culpa da Cultura. É também autor de De Tédio, Ninguém Morre e Coisa de Rico.

O encontro propõe discutir como a inteligência artificial vem transformando as relações entre tecnologia, comunicação, comportamento e democracia, aproximando o debate acadêmico das experiências cotidianas de quem utiliza redes sociais e consome conteúdos digitais.

Publicado pela Diálogos Editora, o livro integra a coleção Diálogos Urgentes, dedicada a questões contemporâneas que exigem reflexão pública.

Sobre a autora

Isabela Kalil é antropóloga, doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), com estágio doutoral na Columbia University, e realizou pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É coordenadora do Observatório da Extrema Direita e pesquisa bolsonarismo, gênero, desinformação, mobilizações políticas e os impactos das tecnologias sobre a democracia.

Sobre a Diálogos Editora

A Diálogos Editora nasce da experiência acumulada pela Ação Educativa ao longo de mais de 30 anos de produção e circulação de conhecimentos comprometidos com a educação, a cultura, a democracia e os direitos humanos. Seu catálogo reúne obras dedicadas às questões emergentes, urgentes e insurgentes do nosso tempo, buscando ampliar o acesso ao conhecimento e diversificar as vozes presentes no debate público.

Serviço

Lançamento: Política Sintética — Como a inteligência artificial transforma os políticos, as eleições e a democracia?

Autora: Isabela Kalil
Convidado: Michel Alcoforado
Data: Terça-feira, 13 de outubro de 2026
Horário: 18h30
Local: Livraria Martins Fontes Consolação
Endereço: Rua Dr. Vila Nova, 309, Vila Buarque, São Paulo (SP)
Editora: Diálogos Editora
Páginas: 232
Preço: R$ 75,00
ISBN: 978-65-977061-4-3
Site: www.dialogoseditora.org.br
Informações: contato@dialogoseditora.org.br

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