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“Entre luz e sombra: o salto artístico de Dan Abranches em Agridoce

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Dan Abranches - Credito Flora Fiorio
Dan Abranches - Credito Flora Fiorio
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Por mais de uma década, Dan Abranches vem se firmando como uma das vozes mais inventivas da cena independente. Em Agridoce, seu segundo álbum, o cantor, compositor e produtor capixaba não só reafirma sua inquietação artística como a leva para um novo patamar: o disco soa como um manifesto de liberdade criativa, mas também como um retrato íntimo de suas dores, alegrias e contradições.

Construído ao longo de cinco meses, o trabalho é uma travessia emocional que começa em tons luminosos e termina em grandiosidade quase épica. As primeiras faixas respiram romance e frescor – a sensação de um amor em seu início. Aos poucos, a narrativa mergulha em camadas mais densas, trazendo solidão, apagamento e crítica social, até desembocar em arranjos grandiosos que não escondem sua vocação catártica. É nessa dinâmica de luz e sombra, prazer e amargura, que o álbum justifica seu nome.

O cuidado sonoro é um dos trunfos de Agridoce. Dan investe em baterias reais pela primeira vez – arranjadas por ele próprio –, mistura beats com quarteto de cordas, coral e instrumentos acústicos, e expande sua paleta para além do eletrônico que marcou seus trabalhos anteriores. A faixa “Maçã”, com arranjo de cordas assinado por Bruno Santos (que já trabalhou com Jorge Aragão, Anitta e Ivete Sangalo), é um exemplo cristalino da sofisticação alcançada. Já “Trans-cendental”, com a participação de Winnit (SP), vencedor do Red Bull FrancaMente, faz o rap cruzar com o neo soul em uma das colaborações mais potentes do disco.

Se o experimentalismo já estava presente em Titan (2021), álbum em que Abranches explorava o processo de transição de gênero com colaborações de artistas trans, em Agridoce ele se mostra mais orgânico e, paradoxalmente, mais acessível. Há blues, MPB, neo soul, mas também há espiritualidade e entrega: “A música, pra mim, vem de um lugar espiritual”, declarou o artista. Essa busca por naturalidade não é discurso vazio – o disco soa cru e sofisticado ao mesmo tempo, como se a imperfeição fosse a matéria-prima da beleza.

Além do esmero musical, o projeto é visualmente ambicioso. Com direção criativa de Flora Fiorio, os visualizers, capas e clipes expandem o universo do álbum para além do som, transformando Agridoce em uma experiência audiovisual completa – algo raro no cenário independente.

Dan Abranches sabe o peso de ser um artista trans em um país que ainda invisibiliza corpos dissidentes. Mas não há vitimismo em sua obra – há potência. Agridoce é a prova de que sua música não cabe em caixinhas, e de que a sinceridade artística ainda pode ser revolucionária.

No fim, o álbum é o retrato de um artista em pleno amadurecimento: consciente de suas raízes, mas sem medo de reinventar-se. É doce, é amargo – e é, acima de tudo, necessário.

 

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