Fabio Manzione lança "Caroço", álbum solo que transforma o que incomoda em matéria-prima de criação
Daniela Berzuini

Depois de mais de duas décadas de carreira dedicada a projetos coletivos como o trio instrumental Maitaca e o projeto Bach à Brasileira, o compositor, instrumentista e escritor Fabio Manzione apresenta “Caroço”, seu primeiro álbum autoral. O disco reúne doze faixas construídas sobre ritmos de tradição oral brasileira — samba, frevo e xaxado — com arranjos fortemente referenciados nos timbres e toques da música, assinados pelo compositor e pesquisador pernambucano Caçapa.

Manzione conta que após anos dedicado a projetos artísticos coletivos, contribuindo como arranjador e compositor, sentiu que era o momento de trazer para o público um material que já vinha amadurecendo há tempos. Desde sua adolescência, quando começou a estudar música, sempre buscou desafios como artista.

“E compor me traz esse desafio no âmbito artístico. Ter um trabalho autoral solo, feito quase todo por mim, tem a ver com essa vontade também. Sempre fui muito afeito à parte da escrita também. E reunir essas duas paixões, que são a música e a escrita, é algo que eu tinha feito pouco, já que quase todos os meus trabalhos são baseados em música instrumental. Por isso, acredito que o principal motivo para lançar o álbum foi tentar juntar duas paixões e trazê-las para o mundo”, detalha Fabio Manzione.

Dualidade

O título do álbum, ‘Caroço’, nasce de uma imagem simples e ambígua: o caroço, aquilo que incomoda ao ser mastigado, mas que é também o núcleo gerador do próprio alimento. Essa dualidade atravessa as letras das doze faixas, que tratam do preconceito linguístico e das atitudes veladas que ele carrega, do hiperestímulo das máquinas, mídias e do mercado que distraem das coisas essenciais, e da dificuldade contemporânea de assumir falhas diante de um mundo que parece não permitir erros.

“Escolhi ‘Caroço’ porque é essa a sensação que quis carregar no disco inteiro: o que incomoda também sustenta. Duas músicas que apresentam bem essa dualidade são ‘Cuidado Frágil’ e ‘Preconceito Intolerante’. O sentido é o de mostrar o quanto uma pessoa pode, ao mesmo tempo, ter características consideradas defeitos, mas que, ao mesmo tempo, ela é única. De trazer a ideia de que nós não somos só um”, pontua o artista.

Parcerias

Gravado entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 no estúdio da Associação Cultural Cachuera — importante centro de pesquisa e difusão da música brasileira de tradição oral, em São Paulo —, o álbum tem arranjos assinados por Rodrigo Caçapa, compositor, violeiro e pesquisador radicado em São Paulo, vencedor do Prêmio Especial de Inovação no Voa Viola: Festival Nacional de Viola.

A instrumentação, composta por voz, violão, rabeca, bandolim, violão de sete cordas, percussão e contrabaixo acústico, reúne Bruno Menegatti (rabeca), Franci Oliver e Rômulo Nardes (percussão) e Vanessa Ferreira (contrabaixo), além do próprio Fabio Manzione ao violão, aos vocais e à percussão.

O disco conta ainda com as participações especiais de três artistas-pesquisadoras da música brasileira: Paola Pichersky (violão de sete cordas), Mazé Cintra e Neila Khadí (voz). “Cada uma dessas parcerias trouxe uma camada de pesquisa e de vivência que eu não teria sozinho”.

Literatura e poesia

Entre as faixas do álbum está uma canção dedicada ao preconceito linguístico — tema que Manzione aborda a partir de observações sobre as atitudes veladas de discriminação presentes na fala cotidiana brasileira. Apaixonado por literatura e poesia, admite que se aventurou nesses universos para compor as canções.

“A ideia foi destacar o que fazemos com a língua, com as palavras, o poder de improvisar sobre o que a gente vai dizer, ou seja, desde que a mensagem chegue, a gente pode escolher muitos jeitos de falar. Quis dar forma de canção a algo que a gente naturaliza no dia a dia, sem perceber o quanto machuca”, exemplifica o músico.

Reflexão artística

“Caroço” chega como um retrato de duas décadas de pesquisa musical convertidas em obra autoral — um convite a mastigar o desconfortável para chegar ao essencial.

“Esse álbum foi feito com muito carinho, eu adorei compor as músicas e trabalhar com todos esses artistas. Ele é uma síntese sobre o que penso sobre o ser humano, a arte no brasil, sobre música brasileira, sobre a vida e suas dualidades. Desejo que o público tenha com o álbum não só o momento de apreciação artística, como também de análise sobre o que estamos vivendo”, declara.

Shows

O público poderá conferir ao vivo as canções do álbum ‘Caroço’ em shows em São Paulo. “Algumas apresentações serão no formato voz e violão intercalando com um bate-papo sobre o processo de criação e gravação do álbum”, detalha Manzione. O primeiro show do pré-lançamento será dia 29/08, às 16h30, no Sebo Nonada, no Butantã, em São Paulo, com entrada franca. Acompanhe a programação de shows e novidades sobre o trabalho de Fabio Manzione no Instagram: @fabio.manzione

O álbum

O álbum ‘Caroço’ estará disponível a partir de 29/11 nas principais plataformas digitais, inclusive no BandCamp https://fabiomanzione.bandcamp.com/album/caro-o

As faixas são: 1. Nem Polícia Nem Ladrão · 2. Caroço · 3. Touch Skin · 4. Amareloágua · 5. Cuidado Frágil (ou o Frevo Manifesto do Héterotop Arrependido) · 6. A Par · 7. A Moda · 8. Vazantes · 9. É · 10. Preconceito Intolerante (ou Samba do Pleonasmo) · 11. Solamente · 12. QI

FICHA TÉCNICA
Artista: Fabio Manzione
Álbum: Caroço
Arranjos: Rodrigo Caçapa
Músicos: Bruno Menegatti (rabeca), Franci Oliver e Rômulo Nardes (percussão), Vanessa Ferreira (contrabaixo)
Participações especiais: Paola Pichersky (violão de sete cordas), Mazé Cintra e Neila Khadí (voz)
Gravação: Estúdio da Associação Cultural Cachuera, São Paulo — outubro/2025 a janeiro/2026
Fotografia: Daniela Berzuini

SOBRE FABIO MANZIONE: Compositor, instrumentista, escritor e performer, Fabio Manzione compõe trilhas para cinema, teatro e espetáculos de dança e integra o trio de música instrumental Maitaca e o projeto Bach à Brasileira. Doutor em Música pela Universidade de São Paulo (USP) e cofundador do espaço cultural Jardim das Máquinas, publicou em 2016 o livro-objeto (sem título) e apresentou as performances “História de uma Linha Só” e “Limit-ações” em espaços do Brasil e da Argentina. Desde o início da carreira, em 2004, dedica-se à pesquisa dos ritmos tradicionais das regiões Sudeste e Nordeste, valorizando os saberes da cultura popular brasileira.

SOBRE RODRIGO CAÇAPA (ARRANJOS): Compositor, arranjador, produtor musical, violeiro, percussionista e pesquisador nascido no Recife em 1975 e radicado em São Paulo desde 2014, Caçapa lançou o álbum “Elefantes na Rua Nova” (2011), com patrocínio do Petrobras Cultural, e recebeu o Prêmio Especial de Inovação no Voa Viola: Festival Nacional de Viola (2012). Publicou o livro digital “Violas Eletrodinâmicas: um Manual de Construção” (2019), com apoio do programa Rumos Itaú Cultural.

Encontrou algum erro? Entre em contato