Festa Literária da Mantiqueira acontece de 3 a 7 de setembro, em Santo Antônio do Pinhal (SP), com Sarau das Pretas na abertura, homenagem a Marcelo D’Salete, debate sobre Elza Soares e espetáculos que aproximam literatura, música, memória e cultura afro-brasileira
Literatura também se escuta. Pode ganhar corpo no palco, virar poesia, encontrar a música, recuperar memórias e criar novas formas de imaginar o futuro. É a partir dessa perspectiva que a FLIMA – Festa Literária da Mantiqueirarealiza sua edição de 2026, entre 3 e 7 de setembro, em Santo Antônio do Pinhal (SP).
Com o tema PASSADOPRESENTE, o festival propõe uma programação que atravessa literatura, quadrinhos, música, performance, memória e ancestralidade. Entre os destaques estão artistas e intelectuais negros como Marcelo D’Salete, Cidinha da Silva, Rosane Borges, Jeferson Tenório, Sirlene Barbosa, Lígia Moreli, Rômulo Fróes, Geni Núñez, Fabiana Carneiro, Bel Santos Mayer, Cibele Tenório, Bruno Rodrigues de Lima e o Sarau das Pretas.
A proposta do festival é olhar para o passado não como algo encerrado, mas como uma dimensão que continua produzindo o presente e interferindo nos futuros que conseguimos imaginar.
Sarau das Pretas abre o festival reverenciando as Yabás
A programação começa na quinta-feira (3), às 19h30, com “Encontros de Realezas – Yabás”, espetáculo poético do Sarau das Pretas, que celebra os dez anos de atuação da coletiva.
A apresentação reverencia Nanã, Oxum, Iemanjá e Iansã, estabelecendo um diálogo entre poesia, performance, cultura africana e afro-brasileira e as experiências contemporâneas de mulheres pretas.
As Yabás aparecem como figuras de força, sabedoria, beleza, guerra, cuidado e transformação. A partir de seus arquétipos, as artistas refletem sobre os ciclos da vida e situações vivenciadas por mulheres negras na atualidade.
A apresentação coloca a ancestralidade no centro da abertura da FLIMA e afirma a arte como espaço de memória, representação e resistência.
Marcelo D’Salete: quadrinhos como memória
Homenageado da FLIMA 2026, Marcelo D’Salete também representa uma das principais conexões entre arte, história e memória propostas pelo festival.
Autor de Cumbe, vencedor do Eisner, e de Mukanda Tiodora, vencedor do Prêmio Jabuti, D’Salete utiliza os quadrinhos para revisitar episódios, personagens e experiências frequentemente apagados ou marginalizados pela historiografia oficial.
No sábado (5), às 10h, ele participa da mesa “Quadros da nossa história: uma homenagem a Marcelo D’Salete”, em conversa com Cristiane Tavares. O encontro aborda as bases éticas e estéticas de sua produção autoral e o papel dos quadrinhos na construção de outras perspectivas sobre a história brasileira.
Elza Soares em debate: uma artista que fez da reinvenção uma linguagem
No domingo (6), às 18h, música, literatura e memória se encontram na mesa “Elza Soares: a voz do feminismo negro”, com a autora Lígia Moreli e o músico Rômulo Fróes, com mediação de Adriana Ferreira Silva.
O encontro parte do livro Elza Soares: insurreição na garganta e percorre a trajetória da cantora, destacando sua permanente reinvenção estética e política.
A participação de Rômulo Fróes ganha especial dimensão por sua experiência como diretor artístico de trabalhos fundamentais da fase final da carreira de Elza, incluindo os álbuns A mulher do fim do mundo e Deus é mulher.
A conversa recupera uma artista que transformou sua própria trajetória em espaço de experimentação e enfrentamento ao racismo, ao machismo, à violência contra a mulher e à desigualdade social.
Mais do que uma homenagem, a mesa propõe pensar o que a obra de Elza continua produzindo no presente: uma artista negra que recusou a ideia de que havia uma idade, um corpo ou um lugar social previamente determinado para sua criação.
Vozes negras e a potência da palavra
A literatura de mulheres negras também ocupa lugar de destaque na programação. No sábado (5), às 18h, Cidinha da Silva e Rosane Borges participam da mesa “Borboletas que insurgem: escrita de mulheres negras”.
A conversa aproxima literatura, pesquisa, ativismo e pensamento para discutir como legado, escrevivência e insurgência atravessam a produção literária e acadêmica de mulheres negras brasileiras.
Na sexta-feira (4), às 19h, Fabiana Carneiro e Ronaldo Vitor da Silva participam de “Escreviver a maternagem, maternar a escrevivência”, encontro que parte de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, para discutir maternidade e maternagem na experiência negra.
Juventude, raça e pertencimento
Ainda no sábado, às 16h, Jeferson Tenório e Natália Zuccala discutem raça, classe, território e pertencimento na mesa “Para além das cotas: subjetividades em (trans)formação”.
A conversa parte dos romances De onde eles vêm e Ainda não para pensar os conflitos enfrentados por jovens que passam a ocupar espaços educacionais historicamente associados às elites.
A literatura aparece, nesse caso, como ferramenta para observar as transformações subjetivas provocadas pela presença de novos corpos em lugares antes interditados.
Quando a biografia vira instrumento contra o apagamento
No domingo (6), às 16h, a mesa “Vidas (re)inventadas: biografia como antídoto ao apagamento histórico” recupera as trajetórias de Luiz Gama e Almerinda Gama.
O historiador Bruno Rodrigues de Lima e a jornalista e pesquisadora Cibele Tenório discutem como a pesquisa biográfica pode recuperar personagens negros que foram deixados à margem da narrativa oficial.
A mesa aborda a trajetória de Luiz Gama, jurista e abolicionista, e de Almerinda Gama, sufragista negra e liderança feminista e antirracista cuja história permaneceu durante décadas pouco conhecida.
Ancestralidade, música e festa no encerramento
A programação chega ao fim na segunda-feira (7) aproximando ancestralidade, literatura, infância e cultura popular.
Às 11h30, Geni Núñez conversa com Jéssica Balbino sobre saberes ancestrais indígenas, descolonização dos afetos e outras formas de pensar a vida em comunidade.
Às 15h, o Coletivo Clã do Jabuti apresenta Noite de brinquedo no terreiro de Yayá, espetáculo inspirado no reisado, em rituais de passagem e na ancestralidade.
A história acompanha Maria, uma menina que é rainha do Congo e precisa lidar com a passagem para uma nova etapa da vida. A narrativa combina música, dança, canto e instrumentos de percussão e cordas, recuperando cantigas autorais e elementos do cancioneiro popular transmitidos por gerações.
PASSADOPRESENTE: memória para imaginar o que ainda não existe
Ao aproximar escritores, músicos, quadrinistas, performers, pesquisadores e artistas de diferentes linguagens, a FLIMA 2026 transforma a literatura em ponto de encontro.
No caso da programação negra, esse encontro passa por uma questão fundamental: como construir futuro quando parte significativa da história foi apagada, silenciada ou contada a partir de uma única perspectiva?
A resposta proposta pelo festival não é voltar ao passado como quem busca nostalgia. É revisitar memórias, recuperar personagens, ouvir ancestralidades e reconhecer a produção de artistas negros como parte fundamental da construção cultural brasileira.
De Elza Soares ao Sarau das Pretas, de Luiz Gama a Almerinda Gama, de Carolina Maria de Jesus às novas gerações de escritores e leitores, a FLIMA propõe uma circulação de vozes e linguagens que entende memória como matéria-prima para a criação.
PASSADOPRESENTE é, assim, uma aposta na possibilidade de transformar memória em movimento — e arte em ferramenta para imaginar outros futuros.
A FLIMA 2026 acontece de 3 a 7 de setembro, em Santo Antônio do Pinhal (SP). A programação é gratuita, com retirada antecipada de ingressos.
SERVIÇO
FLIMA – Festa Literária da Mantiqueira
Quando: 3 a 7 de setembro de 2026
Onde: Santo Antônio do Pinhal (SP)
Ingressos: gratuitos, com retirada antecipada
Programação completa: flima.net.br/programacao-2026