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Resenha – “Eu e Você ou Tudo o Que Eu Não Quero Que Você Saiba”, da sorosoro

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Natália Muhlemberg
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Há algo de profundamente honesto e, por isso mesmo, instável, no disco de estreia da sorosoro. “Eu e Você ou Tudo o Que Eu Não Quero Que Você Saiba” não tenta organizar o caos: ele o abraça. E é justamente nesse atrito entre controle e descontrole que a banda catarinense encontra sua força.

Ao longo de 11 faixas, o grupo costura um mosaico de referências que poderia facilmente desmoronar em excesso, indo do ruído denso do indie americano dos anos 90 à melancolia arrastada do slowcore, passando por lampejos de alt-country contemporâneo e experimentações à la pós-rock. Mas o que poderia soar como colagem se transforma, aqui, em linguagem própria. Não há virtuosismo exibicionista, e sim um compromisso com a textura, com o clima, com a sensação de algo sendo construído e desfeito ao mesmo tempo.

As canções orbitam um eixo temático claro: o “eu” em constante fricção com o “outro”. É um disco de exposição, mas não de confissão fácil. Há ironia, deslocamento e, sobretudo, uma recusa em fechar sentidos. Faixas como “Anna Liz (O Mundo é da Sua Cor)” e “Eu e Você Como Alegoria Para a Guerra Fria” exemplificam bem esse jogo: títulos longos, quase ensaísticos, que antecipam narrativas fragmentadas, onde o íntimo e o político se confundem sem pedir licença.

Um dos méritos mais evidentes do álbum está na tentativa bem-sucedida, em grande parte, de transportar para o estúdio a energia dos shows. As gravações ao vivo em estúdio adicionam uma camada de urgência que escapa à assepsia comum de muitos debuts. Há pequenas imperfeições, respiros, momentos em que a banda parece à beira de se desalinhar… E isso joga a favor. A sorosoro entende que, para soar viva, não pode soar perfeita.

Essa estética “manual”, quase artesanal, também atravessa todo o projeto. Do processo de gravação à identidade visual, há um desejo claro de controle criativo total, mas sem rigidez. O disco pulsa como um organismo coletivo, fruto de um entrosamento que não se constrói da noite para o dia. São cinco anos de banda que se traduzem em uma obra coesa, ainda que irregular em suas superfícies, característica comum em discos de estreia.

Se por vezes o álbum se alonga em atmosferas que parecem mais interessadas em sustentar um estado do que em avançar narrativamente, isso não chega a comprometer o conjunto. Pelo contrário: reforça a proposta de imersão. Ouvir “Eu e Você ou Tudo o Que Eu Não Quero Que Você Saiba” é menos sobre encontrar respostas e mais sobre habitar perguntas.

Em um cenário musical ainda excessivamente centralizado, a sorosoro surge como parte de um movimento que insiste em existir à margem, e fazer disso potência. O disco de estreia da sorosoro é uma tomada de posição. Imperfeito, ambicioso e vivo, como todo começo que vale a pena acompanhar de perto.

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