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Resenha – “Fora de Lugar”, UmQuarto

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Foto: Manu d’Eça | Arte: Vênnus (Josi Santos)
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Em um momento em que a música parece cada vez mais limpa, precisa e nivelada por algoritmos, o UmQuarto faz justamente o contrário: entrega um disco que respira. Fora de Lugar, terceiro álbum da banda de Florianópolis, é menos sobre perfeição e mais sobre presença – a de quatro músicos no mesmo espaço, ouvindo e reagindo uns aos outros, sem a mediação de clicks, grades ou máquinas que prometem corrigir tudo.

Gravado ao vivo, com overdubs apenas quando necessário, o disco tem a vibração de quem escolhe o risco. A opção pela “moda antiga” não soa como nostalgia, mas como um posicionamento: em vez de se esconderem atrás da tecnologia, Mayer Soares, Rafael Salib, Rafa Nogueira e Bernardo Flesch deixam que pequenas falhas convivam com as conquistas sonoras. A banda assume seus andamentos orgânicos, vazamentos de microfone e encontros imperfeitos como parte da estética. E funciona justamente porque nada disso é tratado como gimmick, mas como método.

As oito faixas revelam uma formação que encontrou equilíbrio entre o psicodélico, o blues, o jazz e o groove brasileiro. É um disco em que cada integrante projeta seu próprio vocabulário – e a surpresa é como essa soma resulta em unidade. O UmQuarto, antes um projeto muito centrado nas reflexões de Mayer, agora abre espaço para humor, romance e ironias que surgem de uma escrita mais coletiva. Não há participações especiais, e essa ausência diz muito: Fora de Lugar é a banda dizendo “isto somos nós”.

A referência ao prog setentista – Moto Perpétuo, Invisible, La Máquina de Hacer Pájaros – aparece não como reprodução de linguagem, mas como herança de um tipo de ambição: composições que não têm pressa, que constroem território aos poucos e que não precisam da simetria digital para se sustentarem. O UmQuarto soa confortável dentro desse espaço imperfeito, fazendo do desalinho um ponto de partida, não um defeito.

O grito coletivo de “…não tem IA!”, que encerra a faixa-título, é menos panfleto e mais síntese. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de reafirmar o valor insubstituível do gesto humano: a respiração que antecede a entrada de um instrumento, o olhar que guia uma virada, o timbre que não se repete. No fim, Fora de Lugar é um disco que não tenta competir com máquinas — e justamente por isso soa tão vivo.

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