O vibrafone ganha novas possibilidades de expressão em “Kizomba”, novo álbum do vibrafonista, compositor e pesquisador Ricardo Valverde. O trabalho aprofunda a pesquisa do músico sobre as relações entre o instrumento e as sonoridades afro-brasileiras, tendo como uma de suas principais referências os ritmos e as claves do Candomblé de Nação Angola.
No disco, Valverde cria composições inspiradas nos Nkises e estabelece diálogos entre ritmos como Arrebate, Kongo de Ouro, Samba Kabila, Barravento, Ijexá e Quebrado e a música instrumental brasileira. O vibrafone funciona como elemento de ligação entre diferentes universos sonoros, articulando timbres, ritmos e formas de criação.
Para desenvolver essa proposta, o músico está acompanhado pelo baixista Marcos Paiva e pelos percussionistas Samba Ossale, Mukambila e Leandro Perez, artistas ligados a comunidades de terreiro. A presença desses músicos contribui para o projeto não apenas do ponto de vista instrumental, mas também a partir de saberes e práticas musicais transmitidos pela oralidade.
Tradição, memória e criação
De origem kimbundu, a palavra kizomba remete à celebração e ao encontro — conceitos que também atravessam a proposta do álbum. O trabalho coloca em relação matrizes musicais ancestrais e experimentação contemporânea, aproximando os atabaques do Candomblé, o vibrafone e diferentes instrumentos associados à música instrumental brasileira.
O repertório é formado majoritariamente por composições autorais de Ricardo Valverde. Entre as exceções está “Ungira”, cantiga tradicional de terreiro de domínio público, que recebeu arranjo e adaptação do músico.
As faixas se relacionam a diferentes Nkises e buscam traduzir musicalmente histórias, identidades e forças presentes no universo cultural afro-brasileiro. Dessa maneira, “Kizomba” não se limita à exploração de ritmos: o álbum também integra uma pesquisa sobre memória, ancestralidade e construção de uma linguagem musical brasileira para o vibrafone.
Uma pesquisa que continua
O novo trabalho dá sequência a uma trajetória de pesquisa desenvolvida por Valverde em projetos anteriores. Entre eles está “Xirê de Vibrafone”, lançado no Japão pela Disk Union em 2019 e vencedor do Prêmio Profissionais da Música, além de “Ensemble Choro Erudito”, lançado pela Kuarup em 2020.
A pesquisa também chegou aos palcos do Instrumental Sesc Brasil, em apresentação que posteriormente deu origem a um documentário sobre o processo de criação e as referências musicais do projeto.
Em “Kizomba”, essa investigação ganha uma nova etapa ao colocar o vibrafone em contato direto com matrizes afro-brasileiras. O resultado é uma proposta que articula tradição e invenção, oralidade e composição, ancestralidade e experimentação.
Ficha técnica
Ricardo Valverde — composições, vibrafone e arranjos
Marcos Paiva — contrabaixo elétrico
Samba Ossale — percussão
Mukambila — percussão
Leandro Perez — percussão
Participações especiais:
Pablo Moura — acordeom
Vini Sampaio — guitarras
Sérgio Coelho — trombone
Phellyppe Sabo — sax soprano, flauta e clarone
Bruno Reis — mixagem, masterização e produção artística
Guilherme Valverde — arte visual e capa
Estúdio 185 — gravações realizadas em abril e maio de 2025