Três livros lançados pela Diálogos Editora discutem o que raça, classe, educação e trabalho têm a ver com a maneira como vivemos conectados e por que falar de tecnologia no Brasil é, inevitavelmente, falar de desigualdade
Durante algum tempo, pareceu que o grande problema brasileiro era colocar todo mundo na internet. Vieram os smartphones, os aplicativos, as redes sociais, os serviços públicos digitais e uma vida inteira que hoje cabe – ou deveria caber – na palma da mão. Só que estar conectado nunca significou, necessariamente, estar incluído.
Há uma diferença enorme entre quem usa a internet para pedir comida e quem precisa dela para conseguir trabalhar. Entre quem decide fazer um detox digital no fim de semana e quem não pode deixar o celular longe porque é por ali que chega a próxima corrida, o próximo freela, o aviso do patrão, a consulta médica ou a informação sobre um benefício social.
É nesse Brasil conectado, mas profundamente desigual, que chega a Diálogos Editora, iniciativa que nasce da experiência de mais de três décadas da Ação Educativa. Seus três primeiros livros têm assuntos diferentes, mas parecem conversar entre si sobre uma mesma pergunta: afinal, quem pode usufruir das promessas da tecnologia – e quem continua pagando a conta? Uma das respostas começa pelo tempo.
Em “Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?”, Michelle Prazeres olha para uma palavra transformada quase em mantra contemporâneo: desacelerar. Dormir melhor. Largar o celular. Estabelecer limites. Ter tempo para si.
Tudo ótimo, quando existe a possibilidade de escolher. Para milhões de pessoas, a conexão não termina quando acaba o expediente. O trabalho invade o WhatsApp, a renda depende da disponibilidade permanente e serviços que antes poderiam ser resolvidos presencialmente migram para telas e aplicativos. Nesse contexto, controlar o próprio tempo também se torna uma questão de classe.
É aí que a conversa sobre tecnologia fique mais interessante: quando deixamos de discutir apenas aparelhos e começamos a discutir poder. Essa questão aparece por outro caminho em “Alfabetismo no Brasil em tempos digitais”, organizado por Roberto Catelli e Heloisa Trenche. Saber ler e escrever continua sendo fundamental, evidentemente. Mas o cotidiano digital passou a exigir um conjunto muito maior de habilidades: entender uma interface, preencher um cadastro, reconhecer uma fraude, avaliar se uma informação é confiável, proteger dados e compreender minimamente o que acontece quando apertamos “aceito” sem ler aquelas dezenas de linhas dos termos de uso. Ter um celular na mão não resolve automaticamente nada disso.
A desigualdade digital, portanto, não pode mais ser medida apenas pela pergunta “tem ou não tem internet?”. É preciso perguntar qual internet, em qual aparelho, com que repertório, pagando quanto e com que possibilidade real de exercer direitos a partir dela.
Há ainda uma terceira camada: quem construiu o ambiente no qual fazemos tudo isso? Em “A internet não precisa ser assim”, Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares desmontam uma ideia que naturalizamos depressa demais: a de que a internet dominada por poucas plataformas, movida pela coleta permanente de dados e organizada por algoritmos opacos seria simplesmente o destino inevitável da tecnologia. Não é.
E, quando algoritmos passam a decidir o que vemos, o que desaparece, quem recebe determinada oportunidade e quais corpos são reconhecidos – ou não – por sistemas automatizados, raça e classe voltam ao centro da conversa. O chamado racismo algorítmico lembra que uma tecnologia pode ser nova e, ainda assim, reproduzir desigualdades muito antigas.
A discussão se torna ainda mais urgente com a inteligência artificial ocupando cada vez mais espaço no trabalho, na educação, na comunicação e na cultura. Existe certo encantamento em imaginar o futuro chegando depressa. O problema é esquecer que ele desembarca em um país que ainda carrega desigualdades brutais de renda, escolaridade e acesso a direitos.
Tecnologia nenhuma chega a um território neutro. Os três livros inaugurais da Diálogos Editora são interessantes justamente porque recusam uma discussão tecnológica restrita aos especialistas. Roberto Catelli, diretor editorial da casa, defende que debates sobre educação, cultura e democracia precisam sair dos círculos acadêmicos e chegar à vida cotidiana.
Faz sentido. Porque talvez algumas das perguntas mais importantes sobre tecnologia neste momento não sejam sobre o que a próxima inteligência artificial será capaz de fazer.
São sobre nós. Quem tem tempo para desligar? Quem precisa permanecer disponível? Quem entende as regras do jogo? Quem escreve essas regras? Quem lucra com elas? E quem continua tentando sobreviver enquanto todo mundo anuncia que o futuro já chegou?
Os livros “Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?”, de Michelle Prazeres, e “A internet não precisa ser assim”, de Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares, custam R$ 70 cada. “Alfabetismo no Brasil em tempos digitais”, organizado por Roberto Catelli e Heloisa Trenche, custa R$ 75.
Talvez a melhor provocação desse catálogo de estreia seja justamente esta: a internet pode até estar no bolso de quase todo mundo. Mas autonomia, tempo, repertório e poder continuam muito mal distribuídos.
LANÇAMENTOS
URGENTE É GENTE: estamos vivendo se estamos sempre correndo?
Michelle Prazeres
R$ 70,00
ALFABETISMO NO BRASIL EM TEMPOS DIGITAIS
Organização: Roberto Catelli e Heloisa Trenche
R$ 75,00
A INTERNET NÃO PRECISA SER ASSIM
Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares
R$ 70,00
SOBRE A DIÁLOGOS EDITORA
A Diálogos Editora nasce da experiência acumulada pela Ação Educativa ao longo de mais de 30 anos de produção e circulação de conhecimentos comprometidos com a educação, a cultura, a democracia e os direitos humanos. Com um catálogo dedicado às questões emergentes, urgentes e insurgentes do nosso tempo, busca ampliar o acesso ao conhecimento, diversificar as vozes presentes no debate público e criar espaços de escuta, troca e reflexão.
Site: www.dialogoseditora.org.br
Instagram: @dialogoseditora