Há bandas que estreiam tentando provar algo ao mundo. A Sorosoro parece mais interessada em fazer perguntas. Em “Anna Liz (O Mundo é da Sua Cor)”, single que antecipa o primeiro álbum do grupo catarinense, o questionamento central é tão antigo quanto inevitável: como existir em relação ao outro sem se perder de si?
A faixa mergulha na intimidade de um jovem casal para falar, na verdade, de algo maior — expectativas, projeções, frustrações e coragem. A letra caminha com delicadeza por esse terreno instável, enquanto as guitarras desenham uma paisagem sonora que flerta com o slowcore e o indie dos anos 90. Não é difícil perceber ecos de Television ou Wilco na arquitetura das cordas, mas há também uma contenção emocional que aproxima a banda de uma estética mais contemplativa, quase suspensa no ar.
O que chama atenção é o contraste que define a identidade da Sorosoro: minimalista e expansiva ao mesmo tempo. As camadas são limpas, espaçadas, mas carregam tensão interna. A música respira — e é nesse espaço entre uma nota e outra que a emoção se instala. A produção evita excessos e privilegia a atmosfera, permitindo que o ouvinte se aproxime da canção como quem observa um detalhe íntimo através de uma janela entreaberta.
“Anna Liz” também sinaliza maturidade. Pensado como parte de um disco que costura passado, presente e futuro da banda, o single soa como síntese de três anos de experimentação e construção coletiva. Há mais engenhosidade nos arranjos, mais consciência estética e uma clareza maior sobre o que o grupo quer comunicar.
No fim, a Sorosoro não entrega respostas fáceis — e esse é justamente o seu trunfo. “Anna Liz (O Mundo é da Sua Cor)” é menos sobre certezas e mais sobre atravessar o desconforto com sensibilidade. Um retrato honesto da complexidade afetiva traduzido em guitarras que não gritam, mas permanecem ecoando muito depois do último acorde.