Se a música brasileira há décadas canta sobre desigualdade, violência e ausência de futuro para mulheres — especialmente mulheres negras —, os dados mais recentes mostram que a realidade continua desafinada.
Um levantamento inédito da Tewá 225 revela que nenhuma das 319 maiores cidades do país atingiu níveis satisfatórios de igualdade de gênero. Em 85% delas, os indicadores são considerados “muito baixos” em áreas como segurança, representatividade política e equidade salarial.
É nesse cenário que nasce uma nova campanha nacional, criada pela própria Tewá 225 em parceria com a Abrace uma Causa. A proposta é ambiciosa: mobilizar empresas e pessoas para financiar a criação do primeiro Índice Municipal de Gênero do Brasil — uma ferramenta que transforma dados em metas práticas para políticas públicas e ações de ESG.
Quando o problema vira refrão
Os números ajudam a entender por que temas como violência de gênero, ausência de direitos e desigualdade estrutural seguem atravessando letras, palcos e narrativas culturais.
Na região amazônica, por exemplo, 97% das cidades analisadas estão na pior classificação em igualdade de gênero. Já os dados sobre feminicídio são ainda mais alarmantes: 99% dos municípios registram índices considerados “muito altos”.
A desigualdade também ecoa nos espaços de poder. Em 96% das câmaras municipais, a presença feminina não chega a 30%. E no centro desse desequilíbrio estão as mulheres negras — maioria da população analisada e as mais impactadas pela falta de políticas públicas.
Do diagnóstico à ação
Segundo Luciana Sonck, o objetivo é ir além da denúncia:
“Expor as piores cidades é trazer à tona questões negligenciadas que demandam atenção urgente. Um novo índice, mais robusto, pode orientar investimentos reais em gênero no país.”
Entre as cidades com piores indicadores estão Paranaguá (PR), São Pedro da Aldeia (RJ) e Camaçari (BA). No outro extremo, Araras (SP) e Brasília (DF) aparecem como mais inclusivas — ainda que longe do ideal.
Por que isso importa para quem vive música?
Porque cultura não nasce no vazio.
A cena musical brasileira — do rap ao funk, do pop ao sertanejo — há anos tensiona essas desigualdades, transformando estatísticas em narrativa, denúncia em estética e experiência em linguagem.
Criar um índice como esse é, de certa forma, organizar em números aquilo que a música já grita há muito tempo.
E talvez seja justamente aí que mora a virada: quando dados, cultura e mobilização se encontram, o impacto deixa de ser só discurso e começa a virar política pública.
Quer conhecer ou apoiar a campanha?
Acesse: tewa225doe.abraceumacausa.com.br