Há algo de particularmente fascinante quando uma banda jovem abandona a tentativa de soar como suas referências e começa a construir uma personalidade própria. Em “Tô Quase…”, EP de estreia da Lapso, esse processo acontece diante dos nossos ouvidos. O quinteto de Gaspar (SC) entrega cinco faixas que transitam entre a MPB contemporânea, o indie brasileiro e o pop alternativo sem parecer preso a nenhum desses rótulos.
O título do trabalho já funciona como uma declaração de princípios. “Tô Quase…” é um retrato de uma geração permanentemente em transição: quase estável financeiramente, quase resolvida emocionalmente, quase preparada para lidar com um mundo que parece cada vez mais imprevisível. As canções abordam temas como trabalho, relacionamentos, términos, mudanças climáticas e a sensação constante de falta de controle, transformando inquietações cotidianas em matéria-prima artística.
O grande mérito da Lapso está justamente na forma como essas diferentes perspectivas se conectam. Como cada uma das cinco faixas foi composta por integrantes distintos da banda, seria natural esperar um disco fragmentado. O resultado, porém, é o oposto. Existe uma unidade emocional que atravessa todo o repertório, criando uma narrativa coerente sobre os desafios da vida adulta. É como se cada música observasse o mesmo cenário por uma janela diferente.
Musicalmente, o EP aposta na diversidade sem perder a direção. As influências de Los Hermanos, Rubel, O Terno, Liniker, Ana Frango Elétrico e Milton Nascimento aparecem mais como pontos de partida do que como modelos a serem reproduzidos. Há momentos de delicadeza contemplativa, passagens mais expansivas e arranjos que exploram diferentes texturas sonoras, sempre preservando a identidade do grupo.
O single “Artéria” sintetiza boa parte das qualidades do projeto. A faixa evidencia a capacidade da banda de equilibrar sensibilidade melódica e personalidade estética, enquanto a interpretação vocal de Layla Grazielli ajuda a conferir unidade ao conjunto. A música funciona como porta de entrada para o universo da Lapso e demonstra por que ela foi escolhida para representar visualmente o EP.
Também chama atenção a maturidade do projeto para uma banda formada há apenas alguns anos. Criada em 2022 por amigos do IFSC de Gaspar, a Lapso percorreu um caminho relativamente rápido entre os covers, as apresentações em eventos independentes da região e a consolidação de um repertório autoral consistente. O apoio obtido por meio da Política Nacional Aldir Blanc e da Prefeitura de Gaspar permitiu um salto de qualidade na produção, perceptível tanto nas gravações quanto no acabamento geral do lançamento.
Mais do que um cartão de visitas, “Tô Quase…” soa como o primeiro capítulo de uma trajetória promissora. O EP registra o momento em que uma banda deixa de procurar seu lugar na cena para começar a ocupá-lo. Em um cenário independente frequentemente marcado pela urgência dos lançamentos rápidos, a Lapso entrega um trabalho que valoriza construção, identidade e repertório.
Se existe uma palavra que define este disco, talvez seja “potencial”. Não aquele potencial abstrato de quem ainda precisa provar algo, mas o potencial concreto de uma banda que já encontrou sua voz e agora parece pronta para ampliar seu alcance. “Tô Quase…” não é apenas um começo. É a evidência de que a Lapso está mais perto do que imagina de se tornar um dos nomes mais interessantes da nova música catarinense.